terça-feira, 23 de outubro de 2012

CENSURA NO FUTEBOL

O futebol, especialmente no Brasil, poder-se-ia contar, antropologicamente, a partir das figuras de linguagem expressas por jogadores, torcedores, técnicos, nas várzeas, nas quadras, nos grandes estádios. Nesse sentido, nada mais expressivo do que o uso sistemático de palavrões, xingamentos, impropérios,  conotativos de obscenidade, grosseria, insulto, porcaria, por exemplo: "ladrão", "viado", "bicha", "safado", "comprado", "gambá", "urubu", "porco", "frutinha", "mulherzinha", "perna-de-pau" etc., referidos a qualquer um que se possa culpar por "nosso time não ser campeão".

Os que acompanhamos futebol e torcemos pelos nossos times quantas vezes não presenciamos essas manifestações, ora contra nós, nosso time, "nosso juiz"; ora contra os outros, seu time, "seu juiz"?! Tudo na mais perfeita civilidade futebolística, sem violência física, perdurável pela eternidade de um momento etílico ao lado dos amigos, parceiros de sofrimentos e de títulos.

Pois a perfeita civilidade futebolística, com suas legítimas expressões, com sua intensidade de vida plebeia, neste Brasil dominado pela nobiliarquia patrimonialista, é acometido hoje de umas das mais perversas pragas contemporâneas. Sob o pretexto de civilizar as "hordas de bárbaros" que são razão da vida do futebol,   a ideologia politicamente correta vai-se impondo paulatinamente. Não se vislumbra longe o tempo em que técnicos, jogadores e, sobretudo, torcedores serão obrigados a se dirigirem uns aos outros mediantes os mais denotativos termos:  Vossa Excelência, ínclito jogador, respeitável torcedor, egrégia equipe, nobre técnico, insuspeito árbitro etc. Livres dribles linguísticos?! Nem pensar! Serão punidos exemplarmente.

No entanto, sob essa camada superficial de insana busca pela linguagem politicamente correta no mundo do futebol escamoteia-se interesses dos mais variados, sempre escusos, entre os quais a manutenção do patrimonialismo nos clubes, federações e Confederação. Uma hipótese característica: a punição de clubes por causa de protestos das suas torcidas contra dirigentes e entidades responsável pelo esporte e supostos "esquemas" montados para favorecer qualquer equipe em detrimento de outras.

Eis o que se tem apresentado na imprensa esportiva nacional, relativamente ao protesto que parte da torcida do Clube Atlético Mineiro, Galo, realizou na Arena Independência durante o último jogo contra o Fluminense Futebol Clube, no dia 22 de outubro de 2012:


Trata-se, aí, de uma legítima manifestação da torcida do Atlético, utilizada para protestar contra a Confederação Brasileira de Futebol, CBF, e as arbitragens, por causa de um suposto favorecimento do Fluminense no atual Campeonato Brasileiro de Futebol, expresso num mosaico de cores-símbolo desse último clube e conjunção de letras das sigas CBF e FLU, resultando CBFLU. Sem nenhum tipo de violência contra jogadores, técnicos, autoridades e dirigentes envolvidos na excelente partida em questão.

No entanto, "autoridades do futebol" entronizadas no "Superior Tribunal de Justiça Esportiva", conhecido com o STJD,  aludem à possibilidade de se punir o Atlético, em função do mencionado protesto dos seus torcedores. Contudo, eventual punição consubstanciaria instalação de absurda, inconstitucional censura contra liberdade de expressão nos campos de futebol.

Parece, entretanto, que tais "autoridades" esqueceram ou, simplesmente, não consideram que a liberdade expressão, assegurada pela Constituição da República, mereça ter lugar nos campos de futebol, em benefício da civilização politicamente correta das "hordas de bárbaros", que já não podendo mais lançar palavrões, xingamentos, impropérios... contra tudo e todos, igualmente não podem protestar contra os que se querem  incriticáveis dirigentes do futebol brasileiro.

3 comentários:

  1. os xingamentos fazem parte da sonoplastia do futebol

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  2. No Brasileirão de 2011, na chamada rodada de clássicos regionais a penúltima (se minha memória não me trai) no primeiro turno, as torcidas organizadas Brasil afora programaram um protesto pacífico contra a gestão de Ricardo Teixeira na CBF com vistas já na Copa 2014. Torcidas rivais unir-se-iam, erguendo faixas com a frase "Copa com prestação de contas e sem Ricardo Teixeira". As federações, nos estados, trataram de lançar mão de recursos para proibir tais manifestações. Foi o MPF, a partir de SC, quem freou a censura que já se delimitava nos estádios e arredores. Esse desejo, portanto, não é novo. E claro, Ailton, certíssimo está você ao conectar diretamente às questões que nos remetam à Copa do Mundo no Brasil em 2014. Quem tem, tem medo. CBF e congêneres, portanto...

    Fantástico texto! :*

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  3. Autoritária forma de censurar a Opinhao aleia esta da CBF , os titulares acostumados a dar a famosa carteirada ,habitués dos .."vc não sabe com quem está falando" .. Envergonham quais quiser lugares freqüentam ,sempre em busca de vantagem pessoal .. Não me surprende tal mais nova vergonhosa funesta atitudem destes parassitas sociais que ainda voz possuem para reclamar junto a institucao jurídica (específica) somente por causa de grande capacidade financeira no setor esportivo .
    Excelente A matéria deste blog que ecoa como um aviso contra a liberdade de expressão ! Parabenizo o honrado e digno autor sempre antecipado respeito aos demais , quando a imprensa perceber o fato por trás da evidencia o autor já estará discutindo em juízo soluções reais para salvaguardar a liberdade e o direito dos demais envolvidos !

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