domingo, 11 de outubro de 2015

A SOFISTICADA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA IDOLATRA O DITADOR GETULIO VARGAS

A Sofisticada Organização Criminosa, desde que tomou de assalto o Brasil, fez do patrimonialismo, em todos os setores da vida nacional, mas sobretudo na economia, meio para se transformar em força política absoluta. Nesse sentido, a Organização eleva ao paroxismo os métodos aplicados pelo ditador Getúlio Vargas, durante o "Estado Novo". Não é por outro motivo que ele é tão idolatrado pelos próceres da Organização. 
A propósito disso, pressupondo que nada acontece na realidade humana, sem que passe antes pela literatura, Érico Veríssimo, no épico "O Tempo e o Vento", antevê e nos antecipa por que a Sofisticada Organização Criminosa idolatra o ditador Getulio Vargas. 

...
— Num gesto demagógico — prossegue Terêncio —, teu amigo criou os
institutos de aposentadoria, que se transformaram num foco fabuloso de
ladroagem, corrupção e favoritismo. Se levarmos em conta o vulto da
arrecadação desses institutos, o benefício que o operário recebe, em troca do
sacrifício de suas contribuições mensais, é mínimo, quase nulo. Os encaixes
fantásticos desses institutos foram desviados para empréstimos ilegais
concedidos a privilegiados do Estado Novo, que os empregavam em aventuras
imobiliárias. Um crime inominável!
— Quem te ouve falar — exclama Rodrigo — imagina que o Rio antes do
governo do Getulio era uma cidade de santos, puritanos e eremitas!
Floriano ergue-se, vai de novo até a janela, a pensar numa maneira de pôr
um ponto final nesta discussão. Tranquiliza-se um pouco, porém, vendo na
fisionomia do pai que ele parece não estar levando muito a sério as palavras
de Terêncio.
— Limpa o peito de todos os rancores — diz Rodrigo com um sorriso
generoso. — Não há nada como a gente desabafar. Ó Floriano, me serve
mais cerveja. Essa porcaria deve estar morna e choca. Tem ainda gelo no
balde?
Tio Bicho agora dorme a sono solto e ronca, a cabeça caída para trás, a
boca aberta. Rodrigo lança-lhe um olhar cheio de tolerante simpatia. Terêncio
continua tenso, olhando para o dono da casa:
— Há mais ainda. O Getulio usou o Banco do Brasil como meio para
comprar adversários, apaziguar amigos descontentes, ajudar amigos fiéis e
submeter à sua vontade os governadores dos estados.
— Acho — diz Floriano — que a história deste país poderia ser contada de
maneira fascinante através da história do Banco do Brasil.
— Não esqueçam, rapazes — sorri Rodrigo —, que o Banco do Brasil já
existia antes do Getulio assumir o governo...
— Sim — retruca Terêncio —, mas não com a força, a importância que o
ditador lhe deu. Foi uma maneira que ele descobriu para burlar a Constituição
de 34 e cercear a autonomia dos estados. A política econômico-financeira foi
centralizada de tal modo que os estados passaram a depender do governo
federal, perdendo praticamente sua autonomia política. Com o nosso absurdo
sistema fiscal e mais as arrecadações dos Institutos de Previdência, o
governo central engorda à custa da sangria dos estados. Todo o dinheiro da
nação se concentra no Rio. E os negocistas corvejam em torno dos ministérios
e das autarquias.
— O Banco do Brasil tem exercido o que se poderia chamar de
“imperialismo interno” — diz Floriano. — É um Estado dentro do Estado.
Rodrigo toma um gole de cerveja e, olhando para Terêncio, sorri:
— Vocês, estancieiros, são muito engraçados. Têm um sagrado horror a
qualquer coisa que cheire a intervenção estatal na economia particular, mas
sempre que estavam em dificuldades financeiras, iam de chapéu na mão bater
à porta do governo, suplicando-lhe que interviesse nos negócios de vocês com
medidas providenciais, como empréstimos, moratórias, reajustamentos... Além
de incoerentes, são uns ingratos!
— Seja como for — diz Terêncio —, isso que aí está, essa desmoralização
dos costumes, essa indecência administrativa que se transformou em norma,
esse cinismo diante do erro e do crime que se comunicou à nossa maneira de
ver o mundo: tudo isso devemos a Getulio Vargas. Tudo isso aconteceu,
começou ou se agravou durante o seu governo...
Floriano aproxima-se de Terêncio, põe-lhe a mão no ombro, mas retira-a
imediatamente, sentindo o movimento de repulsa — quase imperceptível —
que o estancieiro faz, como para evitar que a mão suada lhe macule a fatiota
de tropical bege.
— Não estou de acordo com o senhor. A era getuliana coincidiu com um
período particularmente conturbado da história. A moral que imperou entre os
gângsteres de Chicago, na década dos 20, passou a ser adotada por
estadistas europeus na dos 30. Ninguém mais acreditava na força do direito,
mas sim no direito da força. Hitler rasgou tratados. As tropas de Mussolini
invadiram a Abissínia. As do Japão atacaram a China. Franco levou soldados
argelinos para lançá-los no continente contra a república popular espanhola...
— Que era comunista — interrompe-o Terêncio.

O Tempo e o Vento - Parte III - O Arquipélago - Volume 3

Erico Verissimo


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